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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Eu, eu mesmo e o magistério

No último dia 15 de outubro, comemoramos (ou não) o dia do professor. Recebi algumas manifestações de carinho através de mensagens, publicações nesta linha do tempo e muitas marcações em “posts” genéricos (aqueles automáticos que permitem lembrar sem a necessidade de escrevermos um texto e não darmos conta do sentimento, afinal de contas as palavras vão e o que sentimos fica).
Como professores, sabemos que afetamos nossos alunos. Alguns se lembrarão de nós como possíveis transformadores e inspiração para suas carreiras acadêmicas e profissionais. Outros farão questão de nos esquecer por motivos variados. Assim é a vida. Não há possibilidade de agradar a todos que passam por nós nas salas de aula da vida. Contudo, o que não pode haver é a indiferença, o pior dos comportamentos.
Dentro das várias mensagens, havia muitas referências que, sinceramente, faço questão de negar. A negação se deve ao fato de eu não querer nada além daquilo que pertence ao meu ofício. Não quero ter o salário de um deputado. Não quero ter o prestígio de um jogador de futebol. Não quero ter privilégios. Não quero ser o único a não ajoelhar diante do imperador. Não quero ter as outras profissões vinculadas exclusivamente a mim. Não quero ser resumido a piadas ou lugares-comuns como insatisfação salarial, vocação e missão.
À moda de Manuel Bandeira e sua “nova poética”, quero apenas condições básicas de trabalho; possibilidade de construir aulas transformadoras sem a patrulha ideológica; desejo também ver nos espaços educacionais o respeito entre os docentes dos diversos níveis, uma realidade bem distante, pois é muito comum vermos o tratamento preconceituoso sofrido pelos professores da Educação infantil e do Ensino Fundamental. Em uma espécie de antropofagia “magisterial”, professores do nível superior desprezam os do nível médio que desprezam os do nível fundamental; quero também ver o respeito aos pedagogos, e o fim das piadinhas de que “quem não sabe, critica” ou “é fácil falar quando não se está em sala de aula”; quando veremos a formação desses colegas respeitada?
Como é pertinente a meu ser, sempre tendo a observar o copo meio vazio, não vejo muitos motivos para comemorarmos a atuação no magistério. É difícil comemorar ou fazer festa, quando vem à mente que muitos colegas de profissão trabalham dois turnos e recebem menos do que UM SALÁRIO MÍNIMO; que muitos colegas de profissão são agredidos todos os dias física e simbolicamente; que houve um corte significativo das verbas do programa de formação docente; que todos os dias as licenciaturas são massacradas e ameaçadas de fechar; que muitos colegas da rede particular exercem sua profissão sob ameaça constante de demissão, caso não façam o jogo quase sempre clientelista da educação privada; que há professores que trabalham mais de 60 tempos por semana a fim de ter um rendimento mensal razoável; que há professores que foram espancados, humilhados e presos por manifestarem sua insatisfação com os rumos e a qualidade dos serviços educacionais oferecidos pelo Estado a seus contribuintes. Enfim... há muito mais motivos para protestarmos do que para festejarmos.
Peço desculpas por este tom discursivo pautado pelo niilismo e agradeço profundamente todas as mensagens recebidas. Espero que entendam as palavras ditas aqui e que permaneçam na luta política e pedagógica.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Eu, eu mesmo e o futebol

O futebol carioca continua protagonizando o horror. Contribui significativamente, a cada notícia publicada, para as goleadas sofridas pelo Brasil. A divulgação do regulamento do Cariocão-2016 é uma vergonha institucionalizada. Vasco e Botafogo foram beneficiados em questões que são absolutamente nada. Mando de campo, lado de torcida. Este tipo de problema está direta e claramente ligado ao presidente cruzmaltino, Eurico Miranda. A FFERJ, há tempos, é um feudo. E ninguém, absolutamente ninguém se levanta contra isso.

Teoricamente Flamengo e Fluminense estão rompidos com a Federação de Futebol do Rio. Apenas teoricamente. Aqueles que são entusiastas do modelo de Ligas e do futebol moderno acreditam que a dupla fla-flu está se posicionando contra a Federação, ao participarem do campeonato dos pontos cardeais. Seus presidentes não estão preocupados com o campeonato carioca, estão preocupados com verba de patrocínio, com cotas de televisão. Se realmente estivessem a fim de brigarem pelo futebol carioca, buscariam meios de minar a administração de Rubem Lopes e isolar Eurico Miranda. Não é isso que querem. Fortalecem uma liga sem identidade, e sepultam, com a omissão, o futebol do Rio. Todos os políticos do futebol estão acuados. A cúpula da FIFA está ruindo. E os baluartes do progresso o que fazem para combater a CBF? O que fazem para auxiliar os clubes pequenos formadores de jogadores para o futebol brasileiro? Em vez de lutarem contra a CBF, vão lá pedir a benção do Del Nero, outra vergonha.

Antes que me acusem de euriquista ou algo parecido, gostaria de apelar para a memória. Algum torcedor que lê este texto lembra de um gol de título de quaisquer desses campeonatos inventados para suprimir os estaduais? Claro que não. Nem mesmo se este torneio desse uma vaga para a Libertadores. No último jogo do Flamengo, o lateral direito do Urubu fez um golaço de falta, o que ativou a memória dos flamenguistas que recordaram o gol do Pet em 2001. O gol do Pet foi uma espécie de forra do flamengo em relação ao gol do Cocada. No fim, sofrido, emocionante, que deu frio na barriga. Menos na do Renato Gaúcho que, se o frio vier, usa a barriga para empurrá-lo. E por falar em empurrão, quem esquece aquele empurrãozinho dado pelo Maurício, do Botafogo, no Leonardo, do Flamengo?

Estas são algumas memórias que guardo dos Estaduais. Algumas docemente agradáveis; outras extremamente intragáveis. Contudo, memórias, lembranças, que estão ligadas ao fato de terem ocorrido nos estaduais, o que simboliza zoação na escola, no trabalho, no bar. Sempre há um vizinho torcedor do rival. Dificilmente há um vizinho torcedor de um time de um dos pontos cardeais. O Estadual do Rio é muito mais do que um campeonato para tirar o peso das pernas causado pela pré-temporada; é muito mais do que uma fase de testes para o campeonato brasileiro; já foi muito mais do que a Libertadores da América.


É necessário lembrar que muitos dos que brigam pela criação de Ligas (pela salvação do futebol brasileiro) são os mesmos que contribuem para elitização do futebol, que não contribuem para a presença da torcida de seu time no estádio, que estão preocupados com o número de pacotes de première vendidos, que concordam com a realização de jogos às 22h, que vendem o mando de campo dos jogos em casa. Nem tudo é dinheiro. Futebol é paixão. E todos estes, que aí estão, matam um pouco por dia o sentimento do carioca por seu time, por seu campeonato, pelo futebol.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Eu, eu mesmo e o funk


O ano devia ser 1994 ou 1995. Digo que devia, pois este relato é um vasculhar da/na memória e algumas informações podem não corresponder ao tempo apontado, o que não significa ser preenchido por inverdades, mas sim por problemas de precisão crônica e cronológica. Naquele ano, depois de soltar pipa ou jogar bola, eu corria pra casa, preparava a fita cassete de áudio para gravar os meus raps preferidos e, depois, estourar o alto-falante com a repetição ininterrupta (meia hora de cada lado) das canções que falavam de mim, para mim, comigo. Gravava algumas montagens também, mas confesso que sempre gostei do verbo, não das peripécias dos Djs, embora ouvisse o Malboro.
Várias eram as duplas de MCs admiradas. Claudinho e Buchecha, com o rap do Salgueiro e Nosso sonho, música em que aprendi a composição geográfica e sociológica da pobreza, muito antes do “Subúrbio”, do Chico Buarque. Com os meninos de São Gonçalo, entendi que a pobreza do meu bairro, Austin – Nova Iguaçu, era igual à deles lá do outro lado da ponte. Isso obviamente não estava na minha alçada intelectual daquele momento, porque eu nem sabia que existia algo além da Baixada Fluminense. Bob Run e seu “Silva”, que equivale ao meu “Costa” e a tantos outros sobrenomes por aí, também fazia parte do rol de cantores prediletos. Mc Marcinho era “solitário” e top. Coelho e Dinho, Márcio e Goró, Willian e Duda do Borel, Danda e Taffarel, Cidinho e Doca, Coiote e Rapozão, Mc Cacau, e tantos outros.
Quem conhece o funk deve se perguntar neste momento da leitura: “- E os Mcs Junior e Leonardo”? Deixei-os para um parágrafo exclusivo por uma questão paradoxal. Esses MCs fizeram os dois raps de que eu mais gostava: “O rap das armas” e o “Endereço dos bailes”. Confesso que passei boa parte da adolescência querendo conhecer cada baile mencionado na letra, ainda que não tivesse ido nem ao baile do Ferroviário de Austin, pois meus pais não deixavam. Segundo os coroas, o baile funk era o local do proibido, que não deveria ser frequentado por “pessoas de bem”. O paradoxo, a relação de amor e ódio – coisa de fã –, passa a existir em 1995 quando os MCs resolvem homenagear o flamengo, com o “rap do centenário”. Como sou vascaíno desde sempre, considerei este fato uma traição imperdoável. Fiquei furioso, apaguei as gravações que tinha de suas canções e procurei substituí-los. Amor morto, amor posto. Não permiti que ficassem na memória, fui ouvir Nélio e Espiga, com o “rap da lembrança”.
Nesta época, tínhamos, no Rio de Janeiro, duas ou três rádios com programas de Funk diários, o Funk era mídia e aparecia constantemente na Globo, no programa da Xuxa. Os MCs estavam sempre lá. E por essa exposição, uma vez perguntei para minha professora de português o motivo pelo qual em nossas aulas e provas jamais vimos nenhum traço do Funk. A resposta foi taxativa: “- Isso não é cultura”. Muitas foram as vezes em que ouvi isso. Até que internalizei. Em cada ambiente “sério” em que entrei e que frequentei, sempre diziam que o funk não tinha espaço por ser uma espécie de subcultura, algo inferior, coisa de favelado. E foi assim que fui me afastando do funk e me adaptando ao que era considerado alta cultura. Aliás, tudo era cultura: samba, rock, sertanejo, música religiosa, forró, menos o funk. Meu diálogo com minha professora se deu na quinta ou sexta série do ensino fundamental. No ensino médio, já não ouvia mais funk; na graduação em Letras, obviamente não ouvia nem um rapzinho para contar história. E assim fui me tornando um estudante exemplar. Sem perceber, eu não me afastava do funk, eu me afastava de mim.
No último período de minha graduação, obrigatoriamente tínhamos que cursar a disciplina “prática de Ensino”. Nesta disciplina prático-teórica, lemos Paulo Freire e sua concepção de ensino contextualizado, sua “palavramundo”. Lemos também Magda Soares, Marcos Bagno, dentre outros sociolinguistas que afirmam que o ensino de língua materna deve partir da experiência, do mundo, do capital simbólico trazido pelo corpo discente. Em suma, a bagagem do aluno não poderia ser extraviada.
Diferentemente do que se afirma nos meios acadêmicos, o meu estágio como/para professor mostrou que na prática a teoria é outra. A professora regente excluía o contexto, ensinava gramática de modo mecânico, não sabia o nome dos alunos, os tratava literalmente como números. Vale ressaltar que o estágio ocorreu em uma escola que tinha como público crianças moradoras do Complexo da Maré. Esquecer o contexto em que aquelas crianças estavam inseridas era só mais uma violência simbólica cometida em relação àqueles indivíduos já tão marginalizados pela sociedade. O ápice do meu descontentamento como estagiário-observador se deu em uma aula em que a professora apresentou uma canção do Chico Buarque para mostrar os elementos da comunicação. A aula e o material seriam perfeitos se respeitassem o contexto. As crianças tinham problemas sérios de leitura, o que inviabilizaria toda e qualquer possibilidade de apreensão de conceitos abstratos. Foi aí, e diante da minha iminente aula-teste (eu era obrigado a dar quatro aulas-teste antes de minha prova de aula), que reencontrei o Funk.
De modo ousado e contra a vontade da professora, ainda que ela tenha pseudamente consentido, fiz uma pequena e rápida pesquisa com os alunos. Duas perguntas em uma: - “Quem ouvia funk e quem tinha músicas de funk nos aparelhos de celular ou MP3?”. Dos 37 alunos do 5º ano, apenas 3 não tinham e nem ouviam funk, a não ser o funk gospel. A partir disso, montei minha primeira aula-teste. Os textos-base para a aula foram o “Rap do Silva” e “Dako é bom”, da Tati Quebra-barraco. A professora regente temia que a aula virasse um baile funk, o que inevitavelmente aconteceu. Os alunos disseram que o rap era chato e música de velho, embora um deles tenha dito que aquilo era um clássico e que, portanto, merecia respeito. Eles adoraram o funk da Tati. Fizemos a leitura das letras, expliquei para eles o jogo linguístico, a ambiguidade da segunda canção, o que acontece muito no forró e, de uma maneira geral, na música popular brasileira. E por isso, dizer que é pornográfico, que é indecente, é uma questão preconceituosa. Disse a eles que essas palavras se devem ao fato de o funk ser de onde é, e ser feito por quem o faz. Eles entenderam e gostaram. Depois... fizemos a leitura do “Rap do Silva”, a fim de realizarmos a comparação entre estilos e letras. Alguns mais avançados na compreensão e leitura do texto disseram que na favela é assim mesmo (como diz a letra). Na favela, ninguém é respeitado. Ali, todo mundo é Silva, pois pode “levar um tiro, quando sai para trabalhar, para se divertir, para estudar”. O objetivo da aula foi alcançado, pois os alunos perceberam que o funk também é protesto, também é voz de denúncia, perceberam no Funk que a vida dura na/da favela é um problema social.
Após essa aula de/com o Funk, nunca mais fui o mesmo. A emoção daquele encontro, daquela interação com a turma, que antes me jogava bolinha de papel, me chamava de X-9, por ser um corpo estranho, foram fundamentais para minha formação como professor, cargo que passei a exercer oficialmente (dou aulas em cursinhos comunitários desde 2001) em 2006. De lá pra cá, muita coisa mudou, fiz mestrado, doutorado, dei aula em universidade, fui aprovado em dois ou três concursos públicos, trabalhei em duas escolas do Estado. Hoje trampo em uma escola técnica da rede federal, em que tenho um projeto de literatura marginal (com enfoque nas produções da periferia: funk, rap, poesia e prosa). Embora muitas mudanças tenham acontecido, há algo que mudou quase nada: a marginalização do Funk.
O estilo musical – que "quando toca, ninguém fica parado" – ainda é estigmatizado, mesmo que tenha cartaz na novela das 9, mesmo que apareça diariamente em comerciais de TV, mesmo que faça participação especial nos programas televisivos. O Funk, mesmo que tenha sido elevado a patrimônio cultural, ainda é visto como algo menor. O Funk ainda é motivo de chacota em aulas de língua portuguesa ou em outras disciplinas que envolvem cultura. Enfim, o funk continua sendo visto, de modo óbvio por sua relação felizmente indissociável com quem o produz e em que local é produzido, como um subproduto cultural. E é por isso que continuo, em minhas aulas, tocando o Mc Marcinho; que, em meu material didático, continuo dedicando um espaço reservado e significativo para as composições do Cidinho e Doca, do Bob Run; que, em minhas atividades avaliativas, os Racionais aparecem como texto provocador e motivador. É necessário ter em mente que excluir o Funk é excluir o aluno que o ouve, que o faz. Sendo assim, enquanto não houver igualdade e respeito, não viveremos uma educação e uma sociedade justas. Pra finalizar, encerro com um dos melhores raps que já ouvi e ouso comparar com “Agoniza mas não morre”, pois personifico o funk (negro) que implora igualdade.

Eu só imploro a igualdade pra viver, doutor
No meu Brasil
Que o negro construiu
A injustiça vem do asfalto pra favela
Há discriminação à vera
Chegam em cartão postal
Em outdoor a burguesia nos revela
Que o pobre da favela tem instinto marginal
E o meu povo quando desce pro trabalho
Pede a Deus que o proteja
Dessa gente ilegal, doutor
Que nos maltrata e que finge não saber
Que a guerra na favela é um problema social

Um abraço a quem resiste e não tem vergonha de ser o que é. Não quero dizer que é necessário excluir ou esquecer outras manifestações culturais e musicais. Este não é o nosso desejo. O que está em voga aqui é o respeito a toda e qualquer manifestação cultural, à diversidade, ao estilo, ao gênero, ao ser humano e sua produção. É urgente abandonar a hipocrisia que assevera que somos um país multi ou pluricultural, quando, na verdade, o que vemos por aí é a homogeneização da cultura, da língua, do poder.

O narrador sou eu

Parceiro,
Não tente falar como um morador da Baixada Fluminense ou como um morador de favela. Não precisamos que falem por nós. A história é nossa. A vida é nossa. O preconceito que sofremos diariamente pelo CEP, pela cor de pele, pelo contracheque, pelo grau de escolaridade, pela orientação sexual, pelo gênero, pelo número de filhos, de irmãos, de parentes que temos, pela linguagem, pelo estilo musical, é algo que vivemos e sentimos na carne. Este preconceito não é teórico, ele é prático e é praticado por uma sociedade que nos hostiliza, que nos explora e nos esquece.
Aí, quando a violência simbólica sofrida durante séculos se concretiza a partir da violência física, surgem vários heróis da última semana, escritores canalhas, querendo, por meio de um senso comum risível, dizer como pensamos, como nos sentimos, como somos.
Meu irmão, quer saber o que penso? Me pergunta, me deixa falar. Colocar palavras na minha boca, invertendo construções e brigas sociais históricas, é fazer o que você e a corja que representa sempre fizeram, violentar o lado mais fraco da corrente.
A história é nossa. Deixa que a gente narra.

Tempo, amor e memória

A memória surpreende pela não confiabilidade. Geralmente, não recordamos o que desejamos e lembramos o que queremos esquecer. E nesse mistério humano tão complexo quanto o entendimento das divindades, ficamos, geralmente entre o sono e o sonho, com os apontamentos inconscientes na/da consciência.
No ir e vir da mente em busca do abraço morfético, me veio uma lembrança de um tempo em que o ceticismo era menor e em que, talvez, deus fosse mais presente. Durante cerca de 3 anos, participei de um coral que tinha por função principal animar as missas aos domingos pela manhã.
O grupo de cânticos religiosos era formado por pessoas de faixa etária bem acima da minha. Na verdade, o grupo era da “terceira idade”. Jovens, na idade, éramos apenas 6 ou 7. Eu e mais dois amigos (violão, baixo e bateria) e mais 3 meninas que cantavam. É claro que éramos seis, a oscilação se deu pela tentativa de evitar a referência novelística.
Ali, passei bons momentos e outros, nem tanto. A lembrança que povoou minha cabeça na última noite, infelizmente, está mais para o segundo grupo do que para o primeiro. Lembrei-me de um dos integrantes do coral e de sua dura luta pela vida diante de uma doença crônica.
Em um domingo, após a celebração da missa, todos os integrantes do coral foram lhe fazer uma visita. Ele morava em uma casa humilde, em cima de uma fábrica de pipas em que trabalhava. Para nossa surpresa, vivia sozinho e contava apenas com a solidariedade dos vizinhos. Nessa época, acredito eu, a fé começava a me abandonar ou eu passava a perceber que ter fé não era o meu forte, nem meu fraco.
Lembrei também que, por alguns instantes, fiquei sozinho a seu lado. Trocamos poucas palavras. Nunca fui muito bom com as palavras, ainda mais diante da morte, da doença ou de qualquer outro obstáculo da vida. As palavras faltam. O ouvido cuida para que olhos não externem a compreensão da ação inexorável do destino. Sendo assim, ajo como se não fosse, como se não pensasse, como se não existisse.
Entre uma ou outra palavra balbuciada, o senhor me perguntou por que eu estava ali, por que me preocupava com ele? Por que àquela hora da manhã eu não estava curtindo minha idade? Pensei por alguns instantes. Não sabia efetivamente o que dizer. Poderia dizer que era pela presença divina (sabia que não era). E de supetão, sem medir o impacto das palavras, disse que o que me levava até lá era o fato de sermos iguais: eu, ele e todos os nossos companheiros de canto.
Não sei que tipo de sensação estas palavras causaram. Contudo, descobri na insônia de ontem que me lembro de algumas palavras ditas por ele após minha resposta. – “Meu filho! Quando se vive só e se chega aos 70 e tantos, ter a certeza de que estaremos com deus é um detalhe. O que importa na vida é saber se a maneira como vivemos permitiu que deus estivesse conosco. E deus está aqui. E o que é deus? A juventude deve te fazer perguntar isso. Deus é a visita de jovens a um homem velho, doente e solitário. A visita a um homem velho e solitário é amor ao próximo, o mandamento máximo”.
As palavras ditas podem ter sido diferentes, mas o essencial delas está aí. Não sei quando a fé me abandonou... não tenho memória disso. No entanto, talvez tenha sido neste encontro que entendi e internalizei que o outro sou eu e que ainda que o amor partilhado entre os irmãos não seja divino, ele pode despertar sentimentos comuns, nos levar à descoberta da necessidade de luta por alguém além de nós. Fazer-se igual no canto de alegria ou no entendimento da morte é questão primordial para que tenhamos um mundo mais justo, sensível e fraterno.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Minha moda

Um tema… o ponteiro a girar (o funcionamento transcende a bateria)… e a difícil-prazerosa necessidade de redigir. Por assunto a leitura. Sem texto, sem tempo, sem pompa, me vejo na obrigação de tomar uma condução e ir para a faculdade (estudo e sustento). Facilidade e economia: o trem. Neste comboio (que não é o de cordas), foi resolvido o primeiro problema (entende-se pela rima). No meu vagão, pasmem, pois pasmei, havia nove livros abertos [com o meu velho e amarelo (não é amarelo de velho; a capa amarela e a folhas também) Brás Cubas, contávamos dez]. Assombrado, me levantei e percorri os outros seis ou sete vagões daquela composição, percebi que a média era ainda maior. A cada vagão, o número de livros abertos subia. Então, loucura de letrando, resolvi captar os títulos (como é sempre difícil lembrar todos os nomes, me perdoem a mescla autor-título) inumeráveis: Augusto Cury, Pe. Marcelo Rossi, Crepúsculo, Harry Potter, Bruna, a surfistinha, quadrinhos, Coquetel, pelo menos uns 30 títulos parecidos como Seja feliz em trinta dias (pare de fumar em… deixe de beber em… tenha um orgasmo em…). Não posso deixar de mencionar que alguns livros abertos (ou quase livros, porque eram xerox) transpareciam preocupação e desespero (possivelmente leitura obrigatória para trabalho ou prova). Não escreverei mais nomes, senão o escrito se torna infinito. Depois desta vagueação antropológico-literária, tive uma importante constatação para um país conhecido por seu alto índice de analfabetismo: “Ler é fashion”. Cada um se veste como pode, cria, inventa, customiza, revira o armário. Uns usam Armani, Lacoste, Luis Vuitton… outros, as peças vendidas em lojas de baixo custo. E daí?! a moda é minha, o estilo é o homem. Tenho, nestas últimas palavras, a exata sensação de que meu livro velho-amarelo equivale exatamante ao meu all star (surrado e preto), minha camisa amarela e meu jeans. A roupa dos outros livros abertos é questão de imaginar.


P.s.: Este texto foi publicado primeiramente no blog 
http://lerefashion.wordpress.com/

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Asteca


Talvez o calendário Maia realmente apenas aponte o início de um novo ciclo, assim como acontece todo dia primeiro de janeiro; “talvez o mundo não seja pequeno e nem a vida um ato consumado”; talvez definitivamente exista uma possibilidade de algum evento cósmico ocorrer... talvez... talvez...

O que impressiona não é a imprecisão do talvez, mas a maneira com a qual as pessoas tocam suas vidas... e se realmente fosse o fim do mundo... terminaríamos assim... cheios de viciados em crack perambulando por aí... com os estádios para a copa do mundo prontos, e os corredores dos hospitais funcionando como enfermaria, CTI e sala de repouso... sem ter diminuído a miséria e atenuado a fome e a dor do povo nordestino... sem efetivamente ter dignificado o sexo feminino... sem ter abolido o preconceito em todas as suas manifestações... étnicas, sexuais, religiosas e afins... sem realmente ter feito valer a pena esse curto instante entre o nascer e o morrer...

Muitos são os problemas que evidenciam que o caos está instaurado e que definhamos e que morremos um pouco todo dia... de fome, de medo, de intolerância, de inércia, de pressa, de ansiedade, de depressão, de amor – ainda há aqueles que sofrem por amor, de ignorância, de pedantismo, de puritanismo...

Diante de tudo e de nada, talvez o melhor realmente fosse o Juízo Final... não... definitivamente não... os Maias realmente erraram, pois não há como acontecer um julgamento tão importante em dezembro... eles esqueceram que, pelo menos no Brasil, a Justiça está de férias – não nos esqueçamos que, por vezes, a justiça trabalha... aparece... basta olhar para as periferias...

Uma última e não menos importante palavra... Se o mundo não acabou... pelo menos a importante discussão acerca de tão grandioso acontecimento acabou com a onda de violência em São Paulo... pelo menos no noticiário da Globo.

Beijos nos sobreviventes.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

vem vambora

Se eu tivesse algo a dizer sobre um “coração leviano”, talvez contasse como se faz para se deixar enganar. Todo doce é mar. Felicidade é objetivo de todo coração passível de engano e que espera um bem. Porém esquece-se que leviano coração não será de ninguém. Rascunho estas palavras, porque não tenho viola... nem talento. Mas me envolvo. A paixão. Com paixão. Sei que não me atualizo e que não uso rebuscamento... (acho desnecessário usar vocábulos que aferem qualquer tipo de conotação... não que não goste de ambiguidade ou requinte estético... na verdade, não tenho saco ou tecido epitelial rugoso). Melancolia... para os fracos e tísicos... prefiro Antártica (-3,5). Já poetizei (mal)... sambei e até esqueci que não venho mais de lugar nenhum. Se o décimo primeiro andar faz refletir, também traz o medo... a altura e o resfriado... divulgação de quê e para quê... ouço problemas que não são meus e ainda guardo tempo para a falta de tempo alheia... brinca-se com os sentidos sem sentido. Por falar em sentir... carnaval não espera mais... sai à rua e pula e dança e ri. Mas não se atira na Lagoa Rodrigo de Freitas. Sou gente. E posso até dizer que “sou assim”... o problema é que também sou assado. Contudo posso dizer que não fiz parte nenhum batalhão... e não quero falar de flores nem de caixão... meu problema é não ter “pressentimento”... meu poema virou amor... bem diferente daquele que findou-se... estranho mundo-cão... no qual todos se usam, não reciclam... trocam e destrocam como se fossemos presentes de lojas chiques e chiliques... e aqui termino... sem saber como terminar... porque não começou... nem durou... nem sonhou... porque “hoje quero apenas uma pausa de mil compassos”... “um samba sobre o infinito”.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

il nome d'amore

Ao som de “same mistake”, tenho a pretensão de rabiscar algumas-outras palavras acerca do amor. Percebo o quanto a música é penetrante e inebriante... travou meus sentidos. A escrita vai pelo mesmo caminho... iludida pela falsa sensação de suspensão, a mente cala. Não sei se são sempre os mesmos erros... ou os mesmos pedidos de perdão ou as falsas promessas... mas a vida vai. Olho em volta e não me vejo... nem te vejo... nem nos vemos... ou somos um sonho... ou sonho. Ontem enquanto dormia, observei teu semblante (de um modo diferente)... e vi (na covinha de teu rosto) tanto amor que por um instante flutuei... talvez seja a idéia de “outono” e a falta de verbo. Naquele exato momento, me lembrei que a linguagem não mais oferece (se é que já ofereceu) vocábulo que dê conta do que sentimos... e tudo se resume ao que vi naquele espaço minúsculo de teu rosto. Ao passo que desprezo as ações humanas, lamento o fato de as pessoas não poderem sentir o que somos e temos... viver o que vivemos... infeliz o humano que não tem ou teve amor... infeliz o humano que precisa ter amor... pois não tê-lo é a desgraça maior... pior que não nascer é não amar (mútuo)...

Sou ridículo, risível, porém feliz... palhaço, mambembe... esqueço o mundo, alieno-me... sem maiores obrigações... canto... não faço exageros... não cometo usuras... nem loucuras... um amor não pode ser isso, como não pode ser aquilo... mas há de ser isso e aquilo... segue uma toada, que não precisa necessariamente ser monótona... muito menos corriqueira, rotineira... muda-se o tom... improvisa-se... posso dizer que está tudo certo... que está tudo bem... quem o saberá?... essas coisas não se sabem... se sentem... já disse isso em outro lugar... que não aqui...

Será que podemos fazer um mundo melhor?... sei lá... não podemos ter “o sentimento do mundo”... aliás, podemos sim... comprei-o na última semana... queria que os demais seres pudessem captar o que se passa no momento em que nossos olhos se concentram uns nos outros... talvez pudesse soar como uma bomba H de efeito benéfico... infelizmente os químicos das indústrias bélicas americanas ou iranianas não são capazes de causar tal bem à humanidade... contudo, nessa troca de olhar cabe o mundo e, ao som de Oasis, posso dizer que em e por nosso amor “All Around The World, you've gotta spread the word/ Tell 'em what you've heard/ You're gonna make a better day/ All Around The World, you've gotta spread the word/ Tell 'em what you've heard/ You know it's gonna be okay*”.

*os versos pertencem à música “All around the world”, Oasis

terça-feira, 9 de junho de 2009

amar é a maré

Quero cantar o amor, sem sacrifícios ou martírios. O mar faz parte, pois o amor é de encantar. Calypso. Ou amarra-se ou morre-se. Não há dura fortaleza que resista ao canto. Como não sou Ulisses, quedo. Me arrebento, me estrago, mas sem vergonha... me abro sem pudor, terror ou temor. Sim... é o amor, que assola sendo ventania ou marola. Faz renascer, faz despertar. Se não quero agruras, desprezo venturas. O amor e ponto. Indizível, impronunciável, indomável, contudo amável. Experimentar o amor sem fazer dele experiência, rotina... apenas memória, retina... também não quero anjos... nem mulheres pálidas, alcoviteiras... apenas amor... e o que é o amor? É o samba... grande... amor... mentira! Acho melhor não dizer mais nada, pois “se perguntarem o que é o amor pra mim, não sei responder, não sei explicar”, mas sei que tenho... e ele é poesia... é labirinto, não instinto... vinho tinto...

quinta-feira, 4 de junho de 2009

sorriso amargo

Este blog, apontadonariz.blogspot.com, é sem dúvida uma válvula de escape. Escrever é fugir. Uma tentativa, sempre frustrada e frustrante, de traduzir o intraduzível. À moda de Clarice: um drama. Algumas questões ainda me incomodam e de modo catártico me emocionam, evitando que o que pulsa em mim se torne pedra ou seco. Impossível não lembrar de Graciliano e suas personagens híbridas, bicho-humanas. Hoje acordei meio Baleia; necessitando caçar preás e dividi-las com quem não tem nem calango para dar mate à fome. Lá vem mais uma referência. A união Vinicius-Chico-Garoto resultou em “Gente humilde”, porém não se deve apenas chorar. O envolvimento estético suplantou o ético. Talvez seja o humor; quero mais que isso. Talvez seja o ódio: de mim e de minhas roupas (Drummond) e de minha classe e de meu mundo. Hoje vi a fome, vi a dor, vi sofrimentos até então desconhecidos. E tudo que vi, ficará cá dentro, remoendo, destroçando todo vestígio de ser pensante que há em mim, pois jamais darei conta do visto; nunca conseguirei transmitir o que vi. Queria fazê-lo, mesmo de maneira romântica, para transportar as dores alheias, que estão em mim, para os que estão fora de mim: impossível. Morrerei com isso e isso não morrerá. É muito simples me abancar, lançar mão de meu computador e tecer meia-dúzia de palavras vãs. Mas aquela dor... aquela fome... são complexas... nelas não há simplicidade... a um cérebro se engana com palavras... um estômago... a um estômago não é tão fácil iludir... o suco gástrico não deixa... queima... arde... dói... faz barulho... a uma boca inchada por dentes cariados e inflamados... não se engana com água ou sono... “inútil dormir, a dor não passa”... a dor se resolve com amoxicilina, mas custa... não importa se barato ou caro... o fato de custar, em si, já custa... há uma dor maior: a pobreza... que de abstrata tem apenas a classificação gramatical... Remontado a um texto, da época de secundarista, cuja autora é, salvo o engano, Marilita Pozzoli, posso dizer... se dor, fome, miséria, penúria, angústia são substantivos abstratos... onde pisei e o que vi não possuem classificação gramatical... pois tudo era deveras concreto... sim... é necessário fazer uma outra reforma seja na gramática seja no humano...

domingo, 17 de maio de 2009

She makes me wonder!

O que escrever? Pergunta recorrente se pensamos o motivo. Sem culpas, des-culpas. Invalido a existência da hesitação pois não há meio-termo. Não é maniqueísmo! É necessidade. De que adiantam questões dialéticas quando se tem fome? De que adianta adiantar ou uma conjugação perfeita, uma vez que sem proteínas nada vai adiante. Complexo pensar, pois pensamento também não dá conta. Hobbesbawn? Não. Nunca houve uma era de revoluções, mas sim pequenas metamorfoses, nunca completas, pois a essência é a mesma: morfo. Romper com o quê? Ligar-me a quê? Contaram-me uma história de amor, pra quê? O prazer venal também é venérico. E o amor de almas, esse deixo para os “crentes”, que acreditam no vazio, e mesmo assim pensam estarem cheios. Uma penca de antíteses, sinal de confusão, perdição, contradição. Claro que não. Se não há verdades, como contrariá-las? Há linguagem e não antilinguagem, pois sendo o que é já é linguagem. Nos reduzimos ao absurdo. Nos devoramos com os olhos, mãos, armas e com o tédio...

Sim... parei para pensar. É assim que aprendemos. Ao invés de recursos sintáticos, pausas... coitados dos gagos... essas devem aterrorizá-los... mas pensei e lembro-me de um samba, que se não é dos melhores, é melhor por ser samba. Sou autocrata, o samba é melhor porque é dom, não é enlatado, pode ser quadrado, mas isso a gente arredonda.

O samba diz assim “tire o teu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”... não sofro, pelo contrário. Parafraseando o poeta. Tudo vai bem e o coração também. Coitado, era cardíaco e o coração parou. O samba me chegou, porque vem vem de Mangueira; para dar cabo desse meu vazio, ofusca minha retina com os cantos, pois não tem jeito, há de se saber sofrer, porque é assim, sem lamentos, e há sempre de ser: “a mão que faz a bomba, faz o samba”.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Vasco

Há oito anos, o Brasil (por que não o mundo?) assiste a queda de um gigante; acompanha a agonia de seus súditos. É deprimente perceber que aquele que exalava respeito e temor tornou-se presa fácil para o mais combalido adversário.
Feudo durante décadas, o grandioso Clube de Regatas Vasco da Gama morre a cada jogo um pouco por dia. Os últimos golpes foram desferidos pelos dóceis Ipatinga e Figueirense (em casa, no antigo caldeirão temido, hoje não mais) e atingiram fundo a alma desse Titã. Se não guardasse agora meu coração e se não escrevesse em cima de minha conturbada razão, diria Semideus, ou ainda Deus. Como ser vascaíno dói! Após anos de mandos e desmandos em obscuras administrações, o Gigante da Colina passa por um processo de renovação, com uma aparente volta à democracia, lembrando o tempo em que fazíamos história, por sermos pioneiros ao prestarmos favores à humanidade. O desafio maior de nossa nova diretoria é pôr o Vasco em seu devido lugar e principalmente retirá-lo das páginas policiais: o que muito machuca os corações vascaínos e que, durante tempos, afastou outros tantos infantis que, segundo a célebre frase, imortalizam nossas glórias.
Como o bom poeta e vascaíno Drummond, torcerei até o fim dos acréscimos por um tento, seja de quem for, desde que seja nas redes adversárias. Contudo como diz o próprio poeta itabirano: “de tudo fica um pouco”. De todo o descaso, de toda desorganização, de toda falta de caráter, ficou um time aquém de nosso expresso vitorioso, de nossos libertadores.
É duro ver ídolos como Edmundo, Pedrinho e Odvan (sim! O zagueiro-zagueiro é meu ídolo. Deixou um par de títulos lá, alguém se lembra? – Eu me lembro!), agonizando, definhando em meio a um mar de mediocridade. A culpa não é dos medíocres que jogam, mas dos medíocres que os contrataram.
Escrevo esse texto, carregado por um sentimento estranho. Talvez seja o fantasma do rebaixamento que nos ronda e me assusta, contra o qual torcerei até o último segundo. Se esse acontecer, choraremos, passaremos por tempos difíceis, mas pretendo (devemos) encará-lo como a morte para o renascimento, como a fênix grega. O desejo não é que o Vasco volte a ser forte, mas sim que o Vasco renasça e possa vir a ser o que sempre foi: “minha vida, minha história, meu primeiro amigo”. Despeço-me com um abraço fraterno a toda enorme família vascaína e com as palavras do vascaíno Carlos Drummond de Andrade. Uno aqui duas paixões arrebatadoras: Poesia e o Vasco, pois o Vasco é Poesia.
E viva, viva o Vasco: o sofrimento
há de fugir, se o ataque lavra um tento.
Time, torcida, em coro, neste instante,
Vamos gritar: Casaca! ao Almirante.
E deixemos de briga, minha gente.
O pé tome a palavra: bola em frente.
Os versos pertencem ao poema "A Semana Foi Assim", que se encontra reproduzido à página 91 do livro Quando é Dia de Futebol, Ed. Record, 2002.


P.s.: Este texto foi escrito em outubro de 2008.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

casca

Nos últimos dias, cogito muito acerca da linguagem e suas implicações. Isso se deve a um questionar constante. Sem dúvida, um problema de identidade. Tanto para quê... graduação... sentimentalidades... construções afetivas... formação profissional... reconhecimento... de que serve tudo isso... por que hei de fazer... se o nada é a referência última. Escrever alivia, contudo não transforma a tensão em algo bom. Como cogito, especulo. Percebo no ar um clima estranho. Muitos são os dilemas... falta... temos tudo a apenas um toque dos dedos, e não conseguimos dar as mãos. O que falta? O sonho liga a realidade aos nossos desejos mais secretos... talvez falte sonho, porque a realidade não nos contempla... poderia fazer mil e uma indagações... mas fico com uma: Como lidar com a linguagem...? Tudo é o que dizemos ser... Tudo se dá pelo nome e conceito que atribuímos... Fácil pensar assim e me livrar dos sentimentos... a literatura é um meio de ultrapassar a realidade, por conceder a criação de outros mundos pelo universo ficcional... os sentimentos marcam por causarem o desequilíbrio diante da possibilidade da desmesura passional. Creio que todos somos paixões... absurdas, ocultas, desejantes, figurantes, contudo paixões. Escrever é me expor... então me exponho... mas rio, pois me permito ludibriar. Jamais se saberá se o que escrevo é verdade ou mera manifestação da linguagem... Não sou o que sou... sou o que digo que sou. Tantas palavras, pouca explicação... boa é a ilusão de que o mundo se resume a esquadros... janelas, portas ou televisões... Estar iludido é o estado a ser conquistado... Me faço pelo texto que faço... Aqui, como Wilde, renego questões éticas, pois o que me importa é a forma, a beleza, o rendimento estético... Mas se pensamos concretamente, vemos que forma já é conteúdo. Pois na forma se concentra o luxo, no conteúdo, o lixo. Não sou triste, pois isso já é um conceito... da mesma forma não sou alegre... como não direi que sou poeta, uma vez que esse é o maior dos conceitos, pois inventa todos os outros... posso dizer que sou menor, porém abraço o mundo e as coisas... difícil é abraçar pessoas... elas não entendem... ninguém entende... então ficamos num plano superficial dos beijos e abraços artificiais... não nos entregamos à imaginação, tampouco à especulação... não ouvimos o silêncio... não olhamos para fora... nosso ego é infinitamente maior do que nós... Uns desejam ser cavaleiros da verdade, outros de Deus, outros da ciência... mas o que é verdade, Deus ou ciência? Meros conceitos inventados por nós e linguagem...

nós

Oi, Meu nome é Anderson, 25 anos. Me vejo forçado a iniciar esse texto com essa intro-apresentação. Não tenho pretensões. Não penso ou escrevo à moda de Montaigne. Não quero fazer um auto-retrato para entender o todo pela parte. Na verdade, o inverso.

Depuração

Quantas são as pernas do mundo? Em quantas esbarro, mas não toco? Não toco, porque me entoco. Toca é imanente à minha espécie. Tatu? Não; homem? Não; homem-tatu. Trancafiado na prisão que sou, pago pelo crime de não conseguir “manter contato na praça de convites”. Se me liberto do labirinto que represento, me deparo com o labirinto que faz o mundo. O mundo e as coisas são o desfazer-se. O homem, em virtude disso, é naturalmente composto por contradições complementares: santo-pecador, negro-branco, óleo-água, ser e não-ser. Se é, não reconhece a potencialidade e essência do outro. Na busca esmerada da perfeição, se esquece de vislumbrar os interesses e gozos alheios que também são seus. Sendo assim, a introspecção instaurada pelo isolamento inevitável pauta ações, reações, bem como o estado de inércia. Poderia dizer vida é texto. O que é a vida senão um imenso tecido. Quem tece, dá os pontos ou o rasga? Quem proporciona o encantamento das ilusões perdidas e das desilusões achadas?... vazio, crise existencial, ética. Contradições perpassam a existência: vida-morte; tudo se dá pela necessidade de enxergar sempre algo a mais do que o visto. Segundo Pascal, por seu caráter dubitativo, o ser humano tende à monstruosidade. Descrente de si e dos outros, isola-se. Não resolve e se afoga em divagações. Contudo o filósofo francês crê na redenção, mediante o encontro com Deus. Não tenho esse problema. Minhas inquietudes não desembocam em obviedades, pois sei que “a estrada é muito cumprida/ o caminho é sem saída/ curvas enganam o olhar”. A possibilidade de não afetar as pessoas configura uma preocupação constante. Ter a desconfiança aguçada inspira um comportamento sempre “pé atrás”. Assim, perdemos a sinceridade do sorriso, por pensarmos nos pensamentos que se escondem nessa sublime expressão. Me vem à memória uma canção portuguesa acerca dos “laços”. Talvez todo o enigma esteja na fraqueza dos “nós”. É complexo descobrir-se avesso a tudo, por ser o avesso de si mesmo. Mera rebeldia? Não; leitura. O mundo se oferece como aberto, os seres, humanamente fechados. Volto ao sorriso que, se existe alma, é uma porta aberta para a sensibilidade e sensibilização. Remontar-me, desfazer-me, despejar-me... enfim, me expor. É difícil ser sem deixar de ser, ou deixar de ser sendo. Niilismo é só uma maneira de querer esperança. Porém querer é um verbo pequeno por demais. Viver é mais que texto. Trazendo Calderon à baila, “a vida é sonho”. Sonho é linguagem que ultrapassa realidade. E é no inconsciente que realizamos os desejos mais secretos, as vontades mais sórdidas ou as inquietudes mais sublimes.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

casa

Do décimo primeiro andar da Uerj observo o movimento. Contudo me atrapalha a leve brisa no rosto. Se fosse um tufão, talvez revirasse a vida. Como é uma simples viração, apenas faz cócegas no âmago e causa reflexão. Avisto prédios, pessoas e favelas (todas iguais). De longe, do alto de minha indiferença, não notaria se os barracos estivessem de ponta-cabeça. De perto, não me aproximo. Proximidade afeta. É dolorido explicar o asco que produz o concreto. Reproduzo o que produzo. Olho para o lado da Tijuca. Tudo deveria ser simples, mas não é, pois não é nada; não há nada, se quer houve. Todavia, prédios variados e enormes, porém os mesmos. A diferença entre eles consiste nas pessoas que não vejo. São apenas moradores. Digo Tijuca (acredito que é para lá que olho), mas poderia ser Mangueira. Não; Mangueira jamais. Lá brota luz que reflete o zinco. Sobram sangue e suor. No concreto falta vida, sobram sangue, suor e esforço... outras coisas. “As coisas”. Lá vai um táxi, outro táxi, ainda outro, mais... trinta e oito táxis em setenta e nove segundos... Exatidão questionável, não o sentimento... Se é mentira se é verdade... fica a cargo de quem? E tudo me provoca uma vontade única: descer, tomar meu trem e voltar para “algum lugar”.

o jardim

Imenso esforço para remontar aquilo que fomos. A frouxidão dos abraços intriga. O desencontro desarma a esperança de ver-te. Vou ao jardim... frio... inverno glacial, no entanto o coração teima em bater. No jardim, chafariz... seco. Sem temores mais agudos, lanço o olhar para o horizonte. Não vai longe, uma vez que a visão é barrada por uma grade revestida por um plástico com uma textura quase indefinível. Folhas no chão, galhos aparentemente mortos. Que seria vida em meio a um clima e sentimento abafados? Volto ao jardim, cuido de uma flor que, à maneira de Drummond, é apenas flor. No jogo incessante da linguagem, é flor sem classificações ou qualificações, sem nome em latim, sem adjetivo palpável. Diferente da flor itabirana, não rompe o asfalto, como não rechaça ou ameniza a náusea. Ilusão da consciência desiludida ou desilusão da consciência iludida. Poderia ser uma borboleta. É uma flor. Poderia ser... mas é apenas aquilo que não pode deixar de ser: essência, eflorescência. E por que falar de flor? Dói. Viver, ciclo. Schopenhauer nos trancafiou em um labirinto sem paredes ao desfazer a idéia egocêntrica de morte. Tudo permanece, pois o fim de um não implica a finitude do todo. Aprisionados na dor que é viver, e não podendo findar o sofrimento, canibalizamos nossas expressões, e por que não o texto do filósofo alemão. Se um resiste é possível que façamos dele espécie. Talvez regar a flor, fazer jardim de um só broto. Não se deve mensurar ou nomear o porquê das flores, da água, do choro... sem medo. Esse ficou naquele “congresso internacional”. Pueril? Pois sou. Esqueço que crescemos e abandonamos a pretensa fantasia de ser feliz. Botão é flor.

aporia

Começo a escrever e me permito não ter que chegar a lugar algum... gosto de metáforas... por vezes, as desprezo pelo simples fato de não darem conta do conto. Sinto falta de nada... não há carência a ser preenchida... dizem que as pessoas seguram sua onda bebendo, dançando, se drogando, adorando a Deus e, se é possível, escrevendo... não sou magnânimo... sem vazio... talvez, outros... mas são vazios, portanto indizíveis... também não tenho medos... inverto, subverto... verbos de difícil conjugação, quiçá aplicação... outros quinhentos... lá vai um homem pela rua... sem desejos, perambula. Não vê a noite, não por ser escura... tem olho de gato. Tudo é demais.

Fecha-se o ciclo. O mundo cai. A vida vai. O mundo é só o mundo. Te vejo. Incômodo, pois é tempo de não ver. Ouço a canção que não deveria tocar, não por que seja “a canção que tocou na hora errada”... era pra ser canção nenhuma...

Percebo que todos os meus dilemas são peças, mínimos e ridículos problemas de alguém que inculcou a idéia de pensamento. Negar... ignorar... ser feliz... igualar-me... iludir-me... ignorar-me... para que serve servir... filosofar... versar... tantos são os casos... porém não deixamos ser acaso... controlamos o destino... como se fosse possível dar conta daquilo que não somos... nos perdemos na incessante busca do encontrar... beira a patetice ser pateta... não há escolhas... olho para o lado e vejo aquele homem que vai pela rua sem desejos... desejo ser o perambulante... mas já aí, percebo a tristeza de ser o que dizem que sou... no desejo de ser sem desejo há uma implicação de que não dou conta... melhor ser sem saber que sou... pretensamente me olho... vejo mãos grandes... corpo esquálido... dor de cabeça... (deve ser leitura)... acabo de ver a felicidade... velhos dançando... corpos cansados que dançam e descansam descalços... o meu já vergado... (não beiro a velhice) sentado, pensa que pensa enquanto os poros, passagem... passagem...